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segunda-feira, 21 de junho de 2010
A música faz bem à saúde?
MARTA ANTUNES MOURA
A ciência responde à pergunta de forma afirmativa.
Trata-se, obviamente, de músicas selecionadas, capazes de movimentar energias inimagináveis, favorecedoras da harmonia física e psíquica. Nesta situação, a pessoa se sente mais equilibrada quando escuta, por exemplo, o Cravo bem temperado, de Bach, A Flauta Mágica, de Mozart, A Nona Sinfonia de Beethoven, ou a Sagração da Primavera, de Igor Stravinski, cujas vibrações elevadas possuem “[...] infinitos encantos para os Espíritos [...]”.1
Os efeitos da música sobre a saúde são conhecidos desde a Antigüidade. Em papiros egípcios, escritos há mais de 2.500 anos a.C., existem relatos de prescrições médicas que recomendavam a música como meio de favorecer a fertilidade feminina. Os egípcios associavam a música aos processos de cura, à indução hipnótica e aos estados de transe. A música para Platão (428-347 a.C.) é “o remédio da alma”. Shakespeare (1564-1616), famoso dramaturgo e escritor inglês, aconselhava na abertura da sua peça Noite de Reis: “Se a música é o alimento do amor, continuem tocando”. Goethe (1749-1832) só escrevia sob a audição de sinfonias, as quais, no seu entender, representam “a fonte do pensamento e do sentimento puros”.
Nos dias atuais, existem cientistas que analisam metodicamente o cérebro humano, procurando entender os benefícios que certos, acordes musicais produzem na manutenção ou na recuperação da saúde. A Doutrina Espírita esclarece, porém, que os benefícios (ou malefícios) da música ocorrem em nível do Espírito e não do corpo físico: “[...] A alma é apta a perceber a harmonia [musical], excluído todo o concurso de instrumentação, como é apta a ver a luz sem o concurso de combinações materiais. A luz é um sentido íntimo que a alma possui: quanto mais desenvolvido ele, tanto melhor percebe ela a luz. A harmonia é igualmente um sentido íntimo da alma, que a percebe em relação com o desenvolvimento desse sentido. [...]”2
A utilização da música como instrumento terapêutico é prática relativamente recente. Ocorreu pela primeira vez nos Estados Unidos, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de psiquiatras constatou o poder calmante que algumas músicas exerciam em neuróticos e psicóticos de guerra. Nascia, dessa forma, a musicoterapia, uma ciência paramédica que utiliza a música e seus elementos constituintes (ritmo, melodia, harmonia, movimentos, etc.) com objetivos terapêuticos. O professor Hermann Rauhe, da Universidade de Hamburgo, estudioso do assunto, pede prudência no uso da terapia musical, afirmando a existência de pesquisas científicas que apontam para o efeito nocivo de certas músicas: “O despejar contínuo de certas estruturas musicais duras, como o acid rock, durante horas de lazer não é apenas capaz de nos fazer adoecer, como também pode ser a causa de certos tipos de conhecimento serem totalmente apagados do nosso cérebro. Podem provocar enfartos cardíacos e até arteriosclerose”. A Doutrina Espírita justifica esta assertiva, informando que “ [...] nos graus inferiores, essas harmonias são elementares e grosseiras [...]”.3 O Espírito Lamennais, em mensagem mediúnica, também esclarece que “[...] a música vulgar faz vibrar os nervos, nada mais [...]”.4 A musicoterapia é uma profissão de natureza multidisciplinar, constituída por profissionais – psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, enfermeiros, educadores, etc. – que atuam em conjunto com os médicos. Os musicoterapeutas lidam com uma gama variada de enfermos, desde os que apresentam dificuldades motoras e emocionais leves aos portadores de patologias graves (autismo, doenças mentais, cânceres) ou de lesões cerebrais degenerativas (mal de Alzheimer e paralisia cerebral).
A profissão se firmou com os trabalhos realizados na Universidade da Califórnia, na década de 90. Pesquisadores desta instituição desenvolveram um interessante estudo sobre os benefícios da música clássica e erudita no organismo humano.
Esta pesquisa, conhecida como “o efeito Mozart”, submeteu voluntários à audição de músicas de Mozart, durante dez minutos por dia. Os resultados foram surpreendentes, destacando benefícios na saúde dos doentes e melhoria do desenvolvimento cognitivo. “O efeito Mozart”, termo cunhado por Alfred A. Tomatis, causou algumas controvérsias no universo científico da época porque nem todos os pesquisadores conseguiram reproduzir a pesquisa. No entanto, entre 1993 e 1997, o neurobiólogo americano Gordon Shaw desenvolveu método de pesquisa específico em que associou o computador a aparelhagem médica sofisticada. Testou o efeito das músicas de Mozart no cérebro humano e analisou, em seguida, o tipo de estímulo produzido no organismo humano. Para efeito de consistência científica, Shaw e equipe utilizaram apenas uma peça musical de Mozart, a Sonata para dois pianos em ré maior (K448).
Estes cientistas conseguiram mapear áreas do cérebro, ativadas pela música do compositor austríaco, com o auxílio de aparelhos de ressonância magnética e processos lógicos de computação eletrônica. Perceberam, então, que a música, além de estimular o córtex auditivo – local de processamento dos sons no cérebro –, também atuava nas texturas cerebrais associadas à emoção. “Com Mozart, o córtex inteiro se acende”, afirmou, na ocasião, Mark Bodner, um dos pesquisadores da equipe de Shaw. Posteriormente, foi verificado que somente as músicas de Mozart, entre outras músicas usadas como controle na pesquisa, ativavam áreas do cérebro envolvidas na coordenação motora, visão e outros processos mais sofisticados do pensamento. Este trabalho se revelou como de grande valia científica, não somente por caracterizar o “efeito Mozart”, objeto da pesquisa, mas por abrir espaço a novas pesquisas.
As investigações científicas recentes indicam que a música, usada como terapia, tem capacidade de melhorar a qualidade de vida das pessoas, por favorecer o sono e a concentração mental; a memória e aprendizagem; a intuição e a criatividade.Reduz o estresse, fortalece a vitalidade, a imunidade e o sistema nervoso. Certos gêneros musicais apresentam resultados altamente favoráveis à recuperação da saúde do enfermo, quais sejam: a) composições musicais de Mozart; b) músicas barrocas – gênero musical existente nos séculos XVI e XVII; c) Cantatas de Johann Sebastian Bach (1685-1750) e as Oratórias (óperas sacras) de George Friedrich Händel (1685-1759); d) músicas pré-românticas – músicas eruditas que marcaram o período de transição entre o classicismo e o romântico; e) algumas partituras do compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) e outras do austríaco Franz Peter Schubert (1797-1828). A literatura espírita nos oferece vastas informações sobre a música, como apoio terapêutico ou entretenimento. Somente na obra Nosso Lar, encontramos treze referências sobre o assunto, que tratam, entre outros, da audição e percepção musicais; do trabalho dos músicos; dos diferentes tipos de instrumentos musicais; das músicas celestiais; dos “orientadores da Harmonia” que atendem os habitantes da Colônia; dos “embaixadores da Harmonia”, cujos acordes musicais são escutados apenas pelos que têm desenvolvida a audição espiritual; do “Campo da Música” – espaço cultural da Colônia dedicado à música; das clarinadas musicais de ocorrência comum na Colônia; dos aspectos intrigantes sobre os corais e coros; dos hinos para festejar eventos e, como não poderia deixar de ser, relatos sobre a musicoterapia. A propósito, na fase de recuperação dos sofrimentos vividos no Umbral,André Luiz foi especialmente beneficiado com o poder curativo da música em diferentes oportunidades, provocando-lhe renovação de suas energias espirituais.5, 6
Artigo do: Reformador • Junho 2006


